quinta-feira, 23 de maio de 2013

Do que é isso de ser beirão #2


O Homem da Beira é uma curva de rio

Ser da Beira é ser o quê?  Ser da Beira é uma disponibilidade, essencialmente. Uma disponibilidade para partir e estar sempre à beira de estar bem, como se essa indefinição forjada na geografia impossível da “felicidade” fosse  a chave para abrir todas as portas deixadas para trás, como se a certeza de que se tem a chave certa para abrir essas portas, que ficaram no passado, fosse um feitiço que atira sempre o Homem da Beira para todas as beiras.
Pelo meio do século XX surgia em Moimenta da Beira um jornal, o Correio Beirão, que tinha como frase para a sua afirmação “da Beira para todas as beiras”. E é essa disponibilidade de partir da Beira para qualquer beira pendurada nas pontas da rosa dos ventos que distingue o Homem da Beira do Homem das outras beiras.
O que permite ao Homem da Beira este à-vontade com o boi do vento a puxar a carroça do destino, do seu destino, não é mais nem menos que uma graça dos céus, como apontou Aquilino, ao definir a Beira como aquele espaço geográfico onde se encontra sempre um pedaço do mundo.
O Homem da Beira que tenha percorrido as suas romarias, que conheça as suas sonolentas ladainhas, já esteve nas serras com neve, ou nas áridas encostas de Sul a dar na fronha e no Norte afogado no Douro, onde os chaparros dão uma desconhecida alentejana cortiça, nas fartas e faustas florestas do Caramulo ou de Lafões, em rios alimentados por glaciares efémeros, no frio intenso da Guarda, no ameno termómetro do extremo Sul da Beira… é por isto que não há beira que meta medo ao Homem da Beira.
E é também isto que define os seus traços de carácter, a sua idiossincrasia, porque quem se afirma na disponibilidade de andar de beira em beira, tem que ser de versáteis princípios… mas princípios.
Para o Homem da Beira a decência não se confunde com a honestidade porque a primeira admite mudar de perspectiva perante alterações de circunstância e a segunda impõe uma rigidez imprópria de quem faz do caminho vida.
Não é por acaso que alguns dos primeiros “Lançados” em África, os homens que  subiram os rios da Guiné para os primeiros contactos com os povos locais, enfrentando o definitivo desconhecido, eram gentes da Beira, como o foram em Angola também, ou no Brasil ainda… é a disponibilidade que diferencia o Homem da Beira e que lhe permite uma bondade austera, quantas vezes confundida com desconfiança, coisa que se dissipa no seu tempo, ou nunca…
O Homem da Beira faz-se a levantar-se da cama e ver Espanha a Leste e o mar a Oeste, ambos perto, mesmo ali ao lado… mas para onde este Homem não vai. Não vai para Espanha porque em Espanha está ele. Não vai para  o mar, porque no mar, sente-o de uma forma estranha, está ele… mas vai para as américas, áfricas, para qualquer lugar de onde não aviste o pico da Serra da Estrela, mas de onde possa, vá lá, ver o fumo a sair pela chaminé da sua casinha nas berças e de onde possa sair sempre a tempo para comer o caldo acabado de sair das mãos do alquimista maior.
O Beirão é aquela criatura que sabe que só se faz gente se percorrer todo o rio, da nascente à foz, mas que sabe que só se é inteiro quando regressa à curva do rio onde, pela primeira vez, cobriu o corpo de água e viu as cuecas da sua Maria.
Na verdade nenhum beirão faz a mínima ideia do que é isto de ser beirão… é-o.  E chega.



Ricardo Bordalo
Jornalista, nascido em Cascais e criado em Moimenta da Beira 


2 comentários:

  1. É isso mesmo, um Beirão.
    Sem tirar nem pôr.

    Sinto estas palavras como se fossem minhas (que não tenho a veleidade!).

    Parabéns.

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