quarta-feira, 29 de maio de 2013

Do rio que cá corre dentro

Eu (a do meio) acompanhada por duas primas








Há uma ponte que atravessa a minha vida, um rio que me enxagua as fundações. O Mondego faz parte de mim, tal como o orvalho, a geada ou o cheiro a terra molhada, o zumbido das abelhas, o cheiro a resina e a musgo, o fascínio por coisas velhas. Concluída em 1898, a ponte das Caldas da Felgueira, que marca a transição entre dois distritos (Viseu e Coimbra) e entre dois concelhos (Nelas e Oliveira do Hospital), era já velhinha quando eu nasci. Agora, é centenária e melancólica.

Nos Verões da minha meninice, havia tardes domingueiras que se banhavam nas margens do Mondego, havia tardes em que as mantas eram estendidas à sombra de árvores, enquanto os passos teimavam em ir direitinhos para dentro da água. Com uma banda sonora feita de cigarras, mergulhos e risos, eram tardes cheias de uma liberdade fresca. E de pneus que serviam de bóias XXL.

Nos Verões da minha infância, as pessoas estavam de braços abertos para o rio. E havia barcos a remos que nos punham de braços dados com o Mondego. Havia um rio com vida. E gente que se passeava na ponte, para distrair os domingos, e estava certa de que lá em baixo a mesma água nunca passaria duas vezes. Ainda hoje há gente que olha o fugidio rio e relembra que nesta vida tudo passa, que um dia tudo será passado.

Os primeiros banhos de piscina foram também rentes ao Mondego, no Grande Hotel das Caldas da Felgueira. Nos quentes finais de tarde, o meu pai pegava em mim e no meu irmão e lá íamos mergulhar na piscina. Ao fim-de-semana não havia muita motivação para ir lá arrefecer o corpo. Eram tempos em que o passeio de muitos era ir observar, do lado de fora do recinto, quem tomava banho na piscina do hotel.

Quando comecei a adolescer, o Mondego não deixou de correr nos meus dias. A autonomia começou a ganhar-se com uma scooter. Ia para a escola na lambreta, iniciava-me nos passeios sem os pais, na maior mobilidade do querer, do crescer. Naquela altura, fazia parte de um grupo de seis inseparáveis amigas. Seis mosqueteiras, para três lambretas. Lá andávamos as seis de ‘cu tremido’. Muitos dos nossos passeios tinham como destino a ponte das Caldas Felgueira. Ali gastávamos o tempo em intermináveis conversas e em pequenos piqueniques. A doce contemplação da água que nos refrescava o olhar.

O grande início da emancipação veio com aquela lambreta vermelha. Não havia telemóveis, mas também não fizeram falta. Havia a confiança que os meus, os nossos, pais depositaram em nós. E ir à Felgueira de scooter -  para quem não conheça a estrada que liga Canas de Senhorim às Caldas da Felgueira - é um grande passo em termos de crescimento e responsabilidade. Porque é uma estrada sinuosa, estreita, sem barreiras laterais, cheia de curvas e mimosas. Bonita, mas perigosa.

Hoje, numa coisa tão simples quanto uma ida de mota até à Felgueira, percebo as grandes asas que os meus pais me souberam dar.  A ponte das Caldas da Felgueira está tão perto de minha casa e levou-me tão longe em termos de maturidade. Esta ponte  não é só uma ponte. Este rio não é só um rio. Este rio corre-me dentro, este rio sentiu já a minha pele, o meu calor, as palavras minhas e lágrimas e risos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Do que é isso de ser beirão #2


O Homem da Beira é uma curva de rio

Ser da Beira é ser o quê?  Ser da Beira é uma disponibilidade, essencialmente. Uma disponibilidade para partir e estar sempre à beira de estar bem, como se essa indefinição forjada na geografia impossível da “felicidade” fosse  a chave para abrir todas as portas deixadas para trás, como se a certeza de que se tem a chave certa para abrir essas portas, que ficaram no passado, fosse um feitiço que atira sempre o Homem da Beira para todas as beiras.
Pelo meio do século XX surgia em Moimenta da Beira um jornal, o Correio Beirão, que tinha como frase para a sua afirmação “da Beira para todas as beiras”. E é essa disponibilidade de partir da Beira para qualquer beira pendurada nas pontas da rosa dos ventos que distingue o Homem da Beira do Homem das outras beiras.
O que permite ao Homem da Beira este à-vontade com o boi do vento a puxar a carroça do destino, do seu destino, não é mais nem menos que uma graça dos céus, como apontou Aquilino, ao definir a Beira como aquele espaço geográfico onde se encontra sempre um pedaço do mundo.
O Homem da Beira que tenha percorrido as suas romarias, que conheça as suas sonolentas ladainhas, já esteve nas serras com neve, ou nas áridas encostas de Sul a dar na fronha e no Norte afogado no Douro, onde os chaparros dão uma desconhecida alentejana cortiça, nas fartas e faustas florestas do Caramulo ou de Lafões, em rios alimentados por glaciares efémeros, no frio intenso da Guarda, no ameno termómetro do extremo Sul da Beira… é por isto que não há beira que meta medo ao Homem da Beira.
E é também isto que define os seus traços de carácter, a sua idiossincrasia, porque quem se afirma na disponibilidade de andar de beira em beira, tem que ser de versáteis princípios… mas princípios.
Para o Homem da Beira a decência não se confunde com a honestidade porque a primeira admite mudar de perspectiva perante alterações de circunstância e a segunda impõe uma rigidez imprópria de quem faz do caminho vida.
Não é por acaso que alguns dos primeiros “Lançados” em África, os homens que  subiram os rios da Guiné para os primeiros contactos com os povos locais, enfrentando o definitivo desconhecido, eram gentes da Beira, como o foram em Angola também, ou no Brasil ainda… é a disponibilidade que diferencia o Homem da Beira e que lhe permite uma bondade austera, quantas vezes confundida com desconfiança, coisa que se dissipa no seu tempo, ou nunca…
O Homem da Beira faz-se a levantar-se da cama e ver Espanha a Leste e o mar a Oeste, ambos perto, mesmo ali ao lado… mas para onde este Homem não vai. Não vai para Espanha porque em Espanha está ele. Não vai para  o mar, porque no mar, sente-o de uma forma estranha, está ele… mas vai para as américas, áfricas, para qualquer lugar de onde não aviste o pico da Serra da Estrela, mas de onde possa, vá lá, ver o fumo a sair pela chaminé da sua casinha nas berças e de onde possa sair sempre a tempo para comer o caldo acabado de sair das mãos do alquimista maior.
O Beirão é aquela criatura que sabe que só se faz gente se percorrer todo o rio, da nascente à foz, mas que sabe que só se é inteiro quando regressa à curva do rio onde, pela primeira vez, cobriu o corpo de água e viu as cuecas da sua Maria.
Na verdade nenhum beirão faz a mínima ideia do que é isto de ser beirão… é-o.  E chega.



Ricardo Bordalo
Jornalista, nascido em Cascais e criado em Moimenta da Beira 


terça-feira, 21 de maio de 2013

Da arte que nos vê #4






 Estes trabalhos do fotógrafo José Bacelar integram o Projecto "Lapa do Lobo"(patrocinado pela Fundação Lapa do Lobo), no qual participaram ainda os fotógrafos Tito Mouraz, André Cepeda, José Pedro Cortes e Ângela Berlinde. O objectivo deste projecto, que resultou num livro, foi retratar as gentes, vivências e tradições desta localidade beirã.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Do que é isso de ser beirão #1

O ABeira-te vai desafiar algumas pessoas, das Beiras, ou com ligações a esta região, a escreverem sobre o que é afinal isso de ser beirão. A primeira convidada é a Marta Filipa Costa, autora do blogue Sorte de Principiante e da página Mau Humor. O olhar de uma jovem, de 20 anos, que nunca viveu senão em Viseu. 





O que é ser beirã?
Ser beirã é viver e ter nascido na região da Beira. Suponho, contudo, que a pergunta tenha tudo menos literalidade. Vou, por isso, tentar extrapolar-me um pouco e procurar dentro de mim o que me faz sentir beirã.

Quando se fala na região da Beira, é impossível não referir Viseu, a minha cidade. Estou no coração de Portugal, próxima de tudo. Fora do alcance fica apenas a confusão da capital, as planícies do Alentejo e os turistas do Algarve. Por outro lado, as praias de Aveiro e da Figueira da Foz estão a uma curta viagem, assim como a vizinha Espanha. Somos do norte, sem o extremismo do Porto, e possuímos a Serra da Estrela.

Deixando agora de parte a geografia, que me parece ainda um pouco literal, há uma grande história, que remonta aos tempos da Lusitânia, liderada por Viriato, incrustada na nossa região. Pouco cosmopolitas, somos fiéis a muitas tradições.

A ideia de que a Beira é recheada de pequenas aldeias, perdidas pelas encostas das serras, onde predomina a agricultura familiar e uma forte herança vinícola, é verdade e explorá-la sem destino é um pequeno prazer. Ainda no outro dia, descobri a Reserva Botânica de Cambarinho, que é uma das mais importantes concentrações de Loendros da Europa.

Somos conhecidos pela gastronomia dos queijos de cabra e ovelha da Serra, dos enchidos, do leitão da Bairrada e dos pratos à moda de Lafões. A religião ainda desempenha uma parte muito importante na vida dos beirões e uma pequena capela está sempre ao virar da esquina.

Grandes nomes estão igualmente ligados a nós, como o pintor Grão Vasco e António de Oliveira Salazar, assim como as marcas das empresas Visabeira e Licor Beirão. Este último lançou um slogan arrojado, na década de 60, que dizia “Licor Beirão – O Beirão de quem se gosta.”

Há muito para dizer sobre o que é ser beirã, mas nem tenho a certeza se é o que me faz sentir uma ou se é tudo uma questão de herança cultural. Sou-o no sangue, quer queira quer não. Ainda não tive oportunidade de viver noutro lugar, mas este berço que me acolhe é um lugar que está em mudança – rumo ao modernismo. Talvez as tradições se percam, mas não vou deixar de ser beirã.


Marta Filipa Costa

terça-feira, 14 de maio de 2013

Do Mau Humor da menina que quer estudar






As fotografias foram retiradas da página da Mau Humor e do blogue Sorte de Principiante 


Terá sido o acaso a levar-me até ao blogue Sorte de Principiante. Nas deambulações facebookianas descobri uma  menina beirã que, em tempos de crise, ousa ter um sonho: ir para a universidade. Um sonho à distância do dinheiro. E, para concretizar o desejo de saber, a menina perseverante materializou a criatividade em pacotes de fotografias.

No blogue, a Marta Filipa Costa (sim, é esse o nome da menina sonhadora) sugere aos leitores que lhe comprem pacotes de fotografias (cada um com cinco fotos, 10x15, à escolha), "para colocar na parede do quarto, na porta do frigorífico ou completar uma prenda com uma nota de carinho".  

Nas fotografias da Marta Filipa, encontramos fragmentos de Viseu, pedaços da maresia de Aveiro, paisagens da Serra da Estrela, lanches no aconchego da intimidade, flores no regaço, ursos de peluche adormecidos na infância. Cada pacote custa apenas 2,90 euros e o dinheiro vai logo para o contador Ir para a universidade. Neste momento, o contador soma 385, 63 euros.

Gostei muito da ideia desta viseense que tem "três irmãs mais velhas, uma família gigante e recordações de uma infância feliz". E a Marta, que até tem um trevo de quatro folhas, irá construir a sorte, porque vejo nela um despontar de determinação e talento. As mangas desta menina de 20 anos estão já arregaçadas e não precisou de ouvir, no Youtube, os discursos motivacionais do Miguel Gonçalves.

A Marta Filipa quer ir para o curso de Artes Plásticas e Multimédia. Para lá chegar, não teve só a ideia dos pacotes de fotografias. Esta viseense trabalha numa loja de fotografia e criou ainda a marca Mau Humor, onde vende vários produtos que podem ser personalizados, como canecas, malgas, agendas e blocos de notas forrados a tecido.

Os trabalhos da Marta Filipa merecem ser vistos porque neles sobressai sensibilidade e delicadeza, porque neles se revela o sonho de uma beirã. E porque deve ser apoiado quem anseia estudar e ampliar os horizontes. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Das adivinhas #4

«É uma senhora 
Muito assenhorada,
Nunca sai à rua, 
Está sempre molhada.»

Adivinha o que é?


Fonte: Fundo Michel Giacometti/Museu da Música Portuguesa, integrado no projecto Memoriamédia

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Da ruína de um Monumento Nacional




  Ceci n'est pas une maison. C'est la mémoire de Aristides en ruine.

 Isto não é apenas uma casa, que se foi esvaziando de gestos, risos e choros, de calor e humidade, janelas a abrir ou portas a bater. A Casal do Passal  não é só uma residência que se foi despovoando de respiração e cartas no correio. Isto é a parte material que resta para lembrar, de forma afectiva, a vida de Aristides de Sousa Mendes. Isto um dia vai cair e será menos uma peça - uma peça fulcral - para lembrar, aos mais novos e aos mais desmemoriados, que, na aldeia de Cabanas de Viriato, em 1885, no seio de uma família da aristocracia rural, nasceu um homem de gestos heróicos.

Aristides de Sousa Mendes haveria de tornar-se diplomata e, na qualidade de cônsul de Bordéus, viria a livrar milhares de pessoas do Holocausto. Desobedecendo às ordens de António de Oliveira Salazar - que queria que Portugal mantivesse a neutralidade durante a II Guerra Mundial  -, Aristides acabou por atribuir cerca de 30 mil vistos de entrada em Portugal a refugiados, de todas as nacionalidades, que quiseram fugir de França em 1940. 

Pela desobediência, aquele que é chamado de "Schindler português" acabou por ser inibido de continuar a desempenhar as funções de diplomata e perdeu ainda o direito de exercer a profissão de advogado. A solidariedade da comunidade judaica em Lisboa foi determinante para ajudar alguns dos 14 filhos de Aristides a emigrarem e estudarem nos Estados Unidos. 

Aristides acabou por morrer na pobreza, a 3 de Abril de 1954, no hospital dos franciscanos em Lisboa. Despojado de fato próprio, acabou mesmo por ser enterrado com um hábito franciscano. 

É também num estado de 'pobreza franciscana' que a Casa do Passal, classificada como Monumento Nacional,  vai  perdendo as forças. Sem contributos expressivos por parte do Estado, a Fundação Aristides de Sousa Mendes nunca conseguiu angariar dinheiro suficiente para preservar o edifício. Meio milhão de euros impediriam que este palacete caísse de joelhos. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Do jardim que é um haiku





Entrar no jardim pelo lado despovoado e morno da tarde. Todo um jardim para mim, na sua despojada inteireza. A escassos metros, o cemitério da aldeia da Lapa do Lobo, em Nelas. De um lado, o verde vivo enraizado, do outro, o silêncio da (i)mortalidade. O SILÊNCIO. Ao longe, a Serra da Estrela. Aqui, o céu a poisar no vegetal. Um haiku, cá dentro. Os meus olhos a sussurrarem poesia japonesa. Sinto o jardim recém-nascido e vem-me ao céu da boca um haiku de Matsuo Bashô: "Não esqueças nunca/ o gosto solitário/ do orvalho".

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Dos afectos que abraçam o Dia da Mãe










O Dia da Mãe não é só um dia. É o relembrar de toda a minha vida, é o reviver dos últimos seis anos (dos quais, quatro anos e meio foram, para a minha mãe, de luta contra o cancro, depois seguiu-se o luto, nosso). É lembrar as palavras sol e chuva, arco-íris e neblina, temporal e dilúvio, cancro e esperança, desânimo e luta. E amor. E perda. E luz. E luto. O Dia da Mãe, desde que a minha, tão minha, mãe partiu, a 9 de Setembro de 2011, ficou vazio para me encher a mim de emoção e saudade, alegria e saudade, tristeza e alegria. E saudade.

No Dia da Mãe, onde antes havia o conforto de um colo quente, há agora discretas lágrimas e sorrisos e flores e fotografias gastas de tanto serem olhadas. E há vontade de celebração porque sei que tive, e tenho, a melhor mãe que poderia ter. Como me sinto tão grata pelo amor que a minha mãe me soube dar, sinto o dever de celebrar o dia de quem me deu vida, lembrando-me que sou filha de uma mulher extraordinária. Por isso, ontem decidi participar no Chá de amigas na Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo, numa iniciativa promovida por uma mulher que é uma inspiração.

A entrada nos 30 anos, trouxe a Lúcia Simões uma crise existencial que despertou nela a urgência do fazer nascer um projecto que a apaixonasse. Continua a ser a responsável de comunicação e marketing da FNAC Viseu, mas decidiu que era hora de tornar a paixão pela organização de eventos numa concretização de afectos: a Guida Design de Eventos. E é de afectos que se fala quando se vê a atenção que a Lúcia coloca nos mínimos detalhes. Foi pelos afectos que a Lúcia idealizou o evento. A joalheira Rosarinho Cruz  - que cria peças como quem dá à luz - foi a fonte de inspiração para o design do Chá de Amigas. Afectos que geram afectos que inspiram afectos. Foi isso que vi, ontem, na Casa da Ínsua.

Para além de revisitar um lugar ao qual não regressava desde os adolescentes passeios domingueiros com os meus pais e mano, na Casa da Ínsua (edifício do século XVIII, com belos jardins, agora transformado em hotel de cinco estrelas), reencontrei amigos de longa data, com os quais não estava há muito, muito, tempo. Ontem, pude ainda conhecer o interior da casa onde antes só se podia entrar no hall principal. O meu afilhado Afonso definiu ontem a Casa da Ínsua como "castelo assustador", dada a enormidade  e solenidade do espaço. Aos olhos de uma criança de quatro anos, uma casa com tantos corredores e divisões afigura-se como um local cheio de mistério, povoada de pequeninos medos. Medos que se desafiam com uma espada azul feita de balões. Uma espada que, dizia o Afonso, "transforma pessoas em sapos e patos".

Celebrar o Dia de Mãe, entre afectos, é também erguer uma espada invisível que transforma saudades em sorrisos e palavras doces.

Trouxe do Chá de Amigas, um vaso com uma flor e um pacote de sementes de girassol. Não podia estar mais perto da minha mãe, que era mulher de semear - em particular, afectos e flores.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Da arte que nos vê #3










Estas são algumas das imagens captadas por Tito Mouraz (nascido em 1977, em Canas de Senhorim) na aldeia de Lapa do Lobo, no concelho de Nelas. As fotografias integraram o Projecto "Lapa do Lobo"(patrocinado pela Fundação Lapa do Lobo), no qual, para além de Tito Mouraz, participaram os fotógrafos André Cepeda, José Pedro Cortes, José Bacelar e Ângela Berlinde. O objectivo deste projecto - do qual resulta uma exposição e um livro - foi retratar as gentes, vivências e tradições desta localidade beirã.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Das "Maias"














Para que a entrada em Maio fosse abençoada, ontem foi dia de colocar giestas em flor (as "Maias") nas portas e janelas. Esta prática, na minha zona, é uma forma simbólica de impedir que a fome entre nas casas enfeitadas com as "Maias".

Porém, a este ritual, praticado nas Beiras e no Minho, estão ainda associados outros significados, como a celebração da natureza e o início de mais um ano agrícola. Há ainda quem diga que esta tradição pretende espantar as forças do mal. Ou ainda quem atribua a este costume um significado religioso. Reza a lenda que, durante a fuga da Sagrada Família para o Egipto, os judeus andavam à procura de Jesus para o matarem. Até que um dia, viram-no recolher-se numa habitação. Com o intuito de o prenderem na manhã seguinte, e não terem dificuldade em reconhecer o sítio onde Jesus iria pernoitar, os judeus decidiram enfeitar a porta da casa com um ramo de giesta. Por milagre, na manhã seguinte, os judeus depararam-se com todas as casas enfeitadas com giestas, não conseguindo localizar Jesus.

Seja qual for o significado que se atribua a esta prática, não deixa de ser uma bela forma de comunicar através de símbolos e de pólen.