terça-feira, 30 de abril de 2013

Do cego que andou de bicicleta durante 40 anos









Um cego que, durante 40 anos, andou de bicicleta não é história de ficção, é vida de desenrascado. A resiliência de Joaquim Morais alimentou o olho para o negócio. Sem cão-guia e sem bengala, este homem, que já morreu, mas com quem falei quando este tinha 77 anos, aprendeu a ver para além dos olhos. Memórias de um beirão excepcional.

Um trabalho publicado na extinta revista Nós, do jornal i, na edição Nós Desenrascados (2009). As belíssimas fotografias são do Humberto Almendra.

A vida apurada por quatro sentidos. Em cada pedalada, o cheiro a pão quente namoriscava o odor a terra orvalhada. Entre as cinco e as dez da manhã, era vê-lo a andar de bicicleta, na distribuição, com um cabaz cheio de carcaças, broas, pães de segunda e de centeio. A brisa espantava as remelas de sono. O trajecto desenhado num mapa mental. Joaquim Morais, de 77 anos, nunca precisou dos olhos para saber distinguir as ruas, intuir as curvas e fazer os trocos. Uma precisa contagem do número de pedaladas fazia-o parar nos sítios certos. Durante 26 anos, foi esta a vida matinal de Joaquim, invisual desde a infância.

Um cego desenrascado e com olho para o negócio. Assim se pode resumir o perfil de Joaquim Morais. Este negociante nunca permitiu que a cegueira fosse um travão. Cedo percebeu que, "para ter futuro, tinha de encarar a vida como uma pessoa normal”. E para ele normal era ir de bicicleta vender pão entre Santar e Casal Sancho, duas aldeias do concelho de Nelas. A acompanhar o movimento das rodas, um cão. Ao ombro de Joaquim, o corvo Vicente. “O cão avisava-me quando a polícia estava por aqui, eu não podia andar de bicicleta!”, lembra. “O corvo poisava mesmo em cima de mim, imitava os cães e, quando lhe apetecia, roubava-me pão”. Os animais sempre gostaram de acompanhar Joaquim: “Não há animal nenhum que não goste de mim”.

As pombas não se intimidam perante quatro paredes e entram-lhe pelo armazém dentro. Aí, durante muitos anos, acumulou sacos e sacos de batatas, todos empilhados pelas mãos dele. Nesse depósito, a luz incide sobre um Zé Povinho intimidador: Queres fiado toma. Um calendário denuncia a simpatia pelo Sporting. Joaquim trepa para dentro do lagar de vinho e, de um canto escuro, resgata uma garrafa de tinto, de 1994. “É da idade da minha neta Susana”, contextualiza. Uma úlcera do duodeno alimenta-lhe a vontade de ser ele mesmo a fazer o vinho que consome. A prudência de quem quer saber o que lhe entra pela boca.

É no armazém, numa rua próxima de casa, que Joaquim guarda um velocípede de dois lugares. Velhinha, a bicicleta conta com 49 anos, nas mãos do negociante. Como foi comprada em segunda mão, terá, no total, 65 anos. Com esta bicicleta, Joaquim aventurou-se a ir, com um amigo, até à Figueira da Foz, onde passaram dois dias na praia. Uma viagem de 130 suados quilómetros. Com os anos, o comerciante perdeu o rasto à outra bicicleta, aquela que usava para distribuir pão e fruta. Usou-a durante 40 anos. O peso da idade minguou-lhe a agilidade e o sentido de orientação. “Naquela altura era fácil orientar-se porque não havia trânsito”.

Sem cão-guia e sem bengala, é através do ouvido que Joaquim Morais nota a presença de obstáculos. “Se bater o pé, faz eco”. “Se caísse uma folha a cem metros, eu ouvia-a”, exemplifica. Chega a observar as singularidades do feminino e do masculino: “As senhoras caminham como as perdizes, os homens como os coelhos. Ele é mais rápido a caminhar; as mulheres só caminham muito rápido quando andam com os nervos alterados”. Através do movimento, Joaquim consegue perceber se a pessoa é alta ou baixa. É no silencioso nocturno que este cego ‘vê’ melhor: “De noite, devido ao sossego, ao silêncio, o som reproduz-se em dobro”. A chuva torrencial e o vento atrapalham a leitura dos dias: “Rouba-nos um bocado a audição”.

Joaquim cresceu numa família de cinco irmãos. Os pais eram agricultores, de Casal Sancho. O pai bebia demais, a mãe tinha alegria a menos. Por sentir mais carinho em casa dos avós maternos, mudou-se para casa destes, em Santar. Aos cinco anos, cegou. “Um dia, acordei de manhã e não via. Pensei que não havia energia eléctrica e chamei a minha avó. Ela disse-me que já era de dia”. O estado de espírito escureceu: “Entrei em pânico, a chorar”.

“Nesse tempo, andava um inflamação nos olhos, chamada pisca. As pessoas até lavavam os olhos com água das rosas de japoneira, para ver se se curavam”, recorda. No entanto, o problema de Joaquim era outro. “Eu terei cegado devido a uma erva que comi, comecei a inchar e levaram-me para o hospital de Viseu, depois para o de Coimbra, e em seguida para o [Instituto de Oftalmologia] Gama Pinto. Daí, para o Hospital da Estrela”.

Joaquim adaptou-se com facilidade à nova condição. A resiliência e os colegas de infância protegiam-no. Jogava ao pião e andava com o arco e a gancheta, como a restante pequenada. Com os colegas, costumava também subir às árvores para apanhar fruta ou pinhas. Nunca caiu. E só não ia mais vezes porque a “avó chegava-lhe a roupa ao pêlo”.

Aos 19 anos, por intermédio da condessa de Santar e do governador civil de Viseu, foi para o Instituto São Manuel, no Porto. O intuito era o de aprender Braille e música. Desiludiu-se: “Meteram-me numa oficina a fazer vassouras”. Mau, mau, Maria, subiu-lhe a mostarda ao nariz, que não foi para isso que ele se mudou para o Porto. Ao fim de 12 dias, dirigiu-se ao director e perguntou-lhe quanto iria ganhar a fazer vassouras. O responsável disse-lhe que só iria ganhar algum dinheiro, ao fim de um ano, ano e meio. Joaquim não gostou da conversa. Podia lá ser?! “Havia quem estivesse a ganhar 60 ou 70 escudos” por fazer vassouras. Joaquim disse: “Ainda fujo!” O director respondeu-lhe: “Quem foge também se agarra”. A verdade é que ninguém o agarrou.

Foi em Domingo de Ramos, três meses depois da chegada, que Joaquim fugiu do Instituto, saltando para uma tília que estava ao lado da janela do dormitório. Às costas, levava a mala com um fato e um harmónio, na mão o cabo de uma vassoura. Começou a cuspir para o chão, do alto da árvore, para perceber, através do som, a que altura estava. Saltou. Com o balanço ainda se magoou nas costas. Mas nada que travasse a vontade de regressar a Santar.

A estação de S. Bento ainda estava longe. Mas, já tinha desenhado, mentalmente, o trajecto até à estação. “Já tinha feito o percurso, acompanhado por uma rapariga que morava ali perto, para fazer os cálculos da distância”. Quando ouvi o barulho dos comboios percebeu que estava no bom caminho. “Eram quatro e tal da manhã, expliquei lá a um indivíduo que queria ir para a minha terra”. De bilhete comprado, aguardou a hora da partida. “Aguentei até às seis da manhã, a essa hora veio o ardina, comprei-lhe um jornal só para ele me dizer qual era a carruagem para a Beira Alta”. O comboio ia à pinha. Em cada paragem, Joaquim tratava de se fechar na casa de banho, não fosse a polícia aparecer. Na estação da Pampilhosa, agentes policiais ainda o procuraram, mas as artimanhas de Joaquim deram resultados. Ao chegar a Nelas, apanhou um autocarro para Santar. E não mais saiu de lá. Nessa altura, o avô já tinha morrido. “Para a minha avó, foi uma alegria eu voltar”.

Mal aprendeu o Braille, mas também não lhe fez falta. Retomou a vida de negociante. Começou por comprar sucata, papel, cortiça. Depois, alargou o comércio a produtos agrícolas. E conciliava isso com a venda de pão, ao serviço de uma padaria da zona. Nunca se deixou enganar nas contas. “Conhecia melhor o dinheiro que ele a mim”, graceja. “No tempo do escudo, arrumava as moedas ao chão e notava as diferenças entre elas através do barulho que faziam”.

Nas idas a Penalva do Castelo, a 25 quilómetros de Santar, conheceu uma vizinha de uma tia e, de repente, passou a ver com o coração. Em Encarnação apreciou a meiguice. Antes já tinha namoriscado com outras mulheres, mas eram “ásperas, tinham mau temperamento”. O namoro com Encarnação durou dois anos. Antes de casar, “foi bem vigiado”. “Vieram cá os irmãos da minha mulher, para ver as minhas condições de vida. Felizmente, viram-me sempre a trabalhar; naquele tempo vivia, mas vivia bem. Comprava bagaço de azeitona e vendia para duas fábricas”, recorda. Casou quando tinha 24 anos, em 1958. Do enlace resultaram quatro filhos. O mais velho tem 51 anos, o mais novo 38. É com orgulho que diz que a mulher não precisou de andar a ganhar ao dia fora, a cultivar campos alheios. “Ela estava sempre com os filhos”.

O desânimo nunca rondou Joaquim: “Andava sempre muito optimista”. Há quase dois anos, os ombros esmoreceram. A mulher, agora com 73 anos, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Nesse dia, a lareira estava acesa. Ele estava para sair, para ir para o armazém. Mas algo o agarrou a casa. Ela estava sentada à lareira, a aquecer-se. “E eu ao lado dela”. “Ela deu três espirros e, quando espirrou, percebi que ia cair”. Percebeu e segurou-a, “senão caía de cara, no fogo”. Com a mulher inanimada nos braços, deitou-se no chão, para a amparar. Levantou-se e foi para a rua. “Acudam, acudam!” Foi logo transportada para os Hospitais da Universidade de Coimbra. Ficou paralisada do lado esquerdo. Está numa cadeira de rodas. Mas, “come pela mão dela e fala em juízo perfeito”. Como “cozinha. e com perfeição”, por vezes, Joaquim arrisca fazer um ensopado de borrego ou bacalhau à Gomes de Sá.

Agora, já não sente o mesmo entusiasmo para ir jogar dominó ou beber um copito, no café, com os amigos. A mulher desfia as horas num centro de dia. Por volta das 17h00, regressa a casa, onde a espera Joaquim e Raposo, a fiel companhia canina. No ano passado, a revolta entranhou-se no estado de espírito. Esteve internado no hospital, devido a uma pequena cirurgia, e pensou na vida, na dor de não ver a mulher, de não se ver a ele próprio, de não conhecer o rosto do Joaquim adolescente, adulto e entrado na velhice. E, nestas alturas, tudo vem à cabeça. “Revoltei-me muito, mas muito mesmo, por mais calma que tivesse, as lágrimas escorriam-me da cara”.

“Quem nasce cego, a sua vida é cantar. Quem viu e cegou, a sua vida é chorar”, solta em tom de desabafo. Nós acreditamos que, nos dias tristes, o Raposo lamberá as lágrimas que caiam, silenciosas, na calçada gasta. E Joaquim prosseguirá, sem perder a coragem, com o pensamento fixo num anjo da guarda: “Uma altura, cheguei a ver luz, talvez fosse o meu avô a pedir por mim. Acredito na providência”.




sexta-feira, 26 de abril de 2013

Das adivinhas #3

«Alto está,
Alto mora,
Todos o vêem
E ninguém o adora.»

Adivinha o que é?

Fonte: Fundo Michel Giacometti/Museu da Música Portuguesa, integrado no projecto Memoriamédia


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Do baú #1



 Foi assim que a Panorama - Revista Portuguesa de Arte e Turismo, na edição n.º 22 (1944), apresentou "um dos itinerários turísticos mais sugestivos, variados e belos do nosso país". Uma preciosidade.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Do grupo de teatro que impediu a desertificação de uma aldeia no Montemuro






"Se não existisse Teatro Regional da Serra de Montemuro, nenhum de nós estaria na aldeia. O mais certo seria estarmos em Lisboa"
O certo é que estão em Montemuro

O que fazer quando se vive numa aldeia perdida na serrania, sem perspectivas de trabalho, além da agricultura? Fugir para o litoral, emigrar? Não. Resposta certa: criar uma microempresa cultural. Teatro Regional da Serra de Montemuro é uma companhia que desafia as limitações geográficas e faz do provincianismo uma mais valia. 

Uma reportagem que fiz para a extinta revista Nós do jornal i, na edição Nós Provincianos (2009), com fotografias de Humberto Almendra.


O uivo dos lobos aninhou-se no granito do silêncio. Na paisagem instalou-se o silvo dos aerogeradores, com hélices em constante rotação. Na Serra de Montemuro existem mais parques eólicos a produzir energia eléctrica que alcateias a alimentar a superstição do povo. A pastorícia minguou, a comunidade de javalis cresceu, o alcatrão alastrou e, à conta dos projectos de energia eólica, rasgaram-se novos caminhos na serra. Em permanência, a beleza agreste e a teimosia de quem vê no termo "provinciano" um elogio e não desdém.

Em Campo Benfeito, aldeia do concelho de Castro Daire, Viseu, a população não vive do ar, nem da contemplação. Os agricultores sobrevivem da venda do feno. Os reformados, se as forças não lhes faltarem, dedicam os gestos ao cultivo da horta. Neste recanto serrano, o lobo é o símbolo de resistência de uma micro-empresa que conseguiu impedir a desertificação de uma aldeia enrugada. O Teatro Regional da Serra de Montemuro (TRSM) não é apenas mais um grupo teatral profissional, é um exemplo de como, na província, a criação artística pode estancar o fluxo migratório.

Um grupo de apaixonados pelas artes do espectáculo uniu-se em torno da ideia de teatro regional voltado para o mundo. Alguém os chamou de "performers da ruralidade" e o título assenta-lhes bem. "Se não existisse Teatro Regional da Serra de Montemuro, nenhum de nós estaria na aldeia. O mais certo seria estar em Lisboa", diz Eduardo Correia, actor e director artístico daquela companhia. «A aldeia estaria mesmo muito envelhecida e não sei se, neste momento, haveria cá crianças». Num total de 65 habitantes, 12 são crianças. Pequenada essa que, ao contrário de Eduardo, desconhece um uivo de lobo. Foi na meninice que o director do TRSM pôs os olhos em figuras lupinas: «Estava dormir no monte e ouvi pedras a cair; olhei e vi que eram lobos a saltar».

Longe vão os tempos em que, na travessia do maciço de Montemuro, os almocreves, montados em mulas ou cavalos, levavam sempre uma oração, nas albardas da fé e do medo: «Vem-te com Deus meu claro dia. Eu entrego-me a Deus e à Virgem Maria. A Senhora do Monte do Calvário que nos livre de cão danado, e por danar, e que nos livre dos maus encontros e dos meus inimigos. Pai Nosso e Ave Maria». O supersticioso temor ao lobo a atravessar dias longínquos, dias muito arredados da actual A24, auto-estrada que liga Viseu a Chaves e que veio alterar o conceito de isolamento. Por estes lados, a interioridade ainda pesa, mas mais nos meses de invernia, subjugados aos nevões e ao congelamento da água nas tubagens.

Jorge Ventura, autor de Estórias do Lobo na Serra de Montemuro, recolheu relatos que evidenciam que, noutros tempos, para minorar os prejuízos que a fome lupina impunha aos aldeões, a população montava armadilhas. Uma vez apanhado, o lobo era posto numa padiola e exibido, vivo, na aldeia. Em virtude da captura e em sinal de agradecimento, as pessoas depositavam esmolas nas mãos dos caçadores.

Estórias como esta alimentam a inspiração do TRSM. Em O Anjo do Montemuro, um dos cinco espectáculos em cena, há alusão ao destino do lobo capturado. Mas, nessa criação, a presença lupina foi substituída por uma figura angelical.

A dramaturgia d’ O Anjo do Montemuro remete para o terramoto de 1755. O rugido do mar, o abatimento de Lisboa. O fedor a decomposição. Uma figura branca caminha, sobe a serra, em busca do local onde acaba a terra e começa o abismo. Um velho pastor encontra um anjo em mágoa, com grandes feridas nas costas. As asas arrancadas. Uma jaula com rodas. O anjo é aprisionado e exibido a troco de cinco réis. «Venham ver, venham ver. Uma moeda para ver o Anjo do Montemuro». »Na roda, na roda, ponham o dinheiro na roda», cantam os saltimbancos, em palco.

É com o espírito nómada do saltimbanco que a equipa do Teatro do Montemuro mantém as raízes. Foi este o caminho escolhido pelos seis elementos: Eduardo Correia, Paula Teixeira (produtora e assessora de imprensa), Paulo Duarte (director técnico e actor), Abel Duarte (director de cena e actor) Carlos Cal (coordenador de construção de cenários, obras e manutenção do espaço) e Susana Duarte (assistente de produção). As criações são apresentadas de Norte a Sul, dentro e fora da Europa (Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Inglaterra, Luxemburgo e Brasil). Em Portugal, tanto podem actuar num salão paroquial na Serra do Gerês, como na Culturgest ou no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Findos os espectáculos, regressam a casa, em Campo Benfeito, para cuidarem dos afectos, das hortas e de novas criações artísticas.

O grupo começou por ter a sede no Salão Paroquial do Fojo (mais uma referência ao "cão danado", já que fojo era o nome dado a um fosso que se abria e tapava com giestas, com o intuito de capturar lobos). O objectivo inicial do TRSM era animar os serões de Inverno da comunidade. Em 2002, foi construída a actual sede, o Espaço Montemuro, que teve honras de visita presidencial, com Jorge Sampaio a inaugurar o edifício.

Curiosamente, esta companhia de província estreou-se em Inglaterra - sob o impulso profissional de um actor e encenador inglês, Graeme Pulleyn -, com a peça bilingue Wolf/Lobo. Depois de finalizar um curso de teatro e artes dramáticas, Graeme Pulleyn encontrou, em Castro Daire, a possibilidade de criar teatro em locais alternativos. O encenador sentiu-se atraído pela possibilidade de construir um projecto com identidade própria. A «energia e entrega» dos actores de Campo Benfeito motivaram-no a instalar-se na aldeia vizinha do Rossão. O casamento com uma filha da terra estreitou os laços do britânico com aquela comunidade. Graeme tornou-se o rosto do grupo de teatro.

O TRSM foi criado em 1990, em ambiente de volatilidade. «As pessoas foram saindo, por razões profissionais. Eu continuei com o Graeme», recorda Eduardo. Os dois começaram por criar espectáculos de palhaços, a pedido do INATEL. Ao longo de quatro anos, fizeram intercâmbio com muitas pessoas, incluindo estrangeiros. Houve muita formação e residências artísticas. Wolf/Lobo resultou de uma co-produção entre o TRSM e uma companhia inglesa. Após a apresentação, nos arredores da cidade de Birmingham, o Teatro de Montemuro recebeu um convite da companhia Trigo Limpo/teatro ACERT, de Tondela, para participarem no FINTA- Festival Internacional de Teatro ACERT. Um crítico de teatro, presente no certame, gostou de Wolf/Lobo e uma «boa crítica» num jornal nacional abriu portas ao reconhecimento.

Em 1995, com a aprovação da primeira candidatura a apoios do Estado, o TRSM assumiu-se como companhia profissional. Actualmente [2009], a micro-estrutura recebe um apoio quadrianual, do Ministério da Cultura, de 294.700 euros.

Quando, em 2004, Graeme Pulleyn oficializou a saída da companhia, Eduardo ficou «assustado». Afinal, Graeme era a imagem do TRSM. Mas o encenador inglês ansiava por novas paisagens geográficas e artísticas e, ao fim de 15 anos a viver no Rossão, decidiu mudar-se para a cidade de Viseu. Não houve um corte radical porque continua a trabalhar pontualmente com o TRSM. A companhia sobreviveu. E reforçou a auto-confiança.

A equipa do TRSM empenhou-se, desde o início, em desmistificar, na aldeia, a ideia de que um actor era um diletante preguiçoso. Por isso, é cumprido um horário de trabalho: das 09h30 às 18h00. «Isso veio credibilizar o nosso trabalho aqui na aldeia», explicita Eduardo Correia. «Todos vimos de trabalhar as terras», exprime. E, por essa razão, não quiseram que os conterrâneos os rotulassem de mandriões. «Os primeiros tempos foram muito difíceis, não tínhamos dinheiro e pedíamos ajuda à família para poder fazer uma digressão». «Ganhava mais dinheiro quando fazia espectáculos de palhaços; era 20 contos [100 euros] por espectáculo», recorda Eduardo. Nunca pensaram em desistir do teatro. Embora, «numa fase inicial, achássemos que o Teatro de Montemuro seria uma coisa efémera».

Eduardo nunca se cansa de Campo Benfeito, por duas razões: anda constantemente em digressão e, quando poisa na aldeia, o seu temperamento activo faz com que a acção espante o tédio ou isolamento. Mas não é qualquer actor que encaixa no ambiente serrano. «As audições que fazemos não são tanto para avaliar as capacidades artísticas dos actores, mas um modo de perceber se eles se adaptarão a este meio». O actor que integre um projecto do TRSM tem de ter flexibilidade de espírito para passar meses em criação, na aldeia.

O estilo de representação de Abel, Eduardo e Paulo caracteriza-se por interpretações que implicam grande desgaste físico e emocional. O que singulariza o TRSM, no entender de Eduardo Correia, é o facto de tratar-se de um «teatro genuíno»: «As pessoas acreditam muito nas personagens e, em termos de trabalho, há rigor, disciplina, raramente chegamos atrasados, temos boa disposição e humildade». «Fomos habituados a fazer tudo, a não termos medo do trabalho duro», aponta Eduardo. E isso é notório. Ao chegarmos ao Espaço Montemuro, vemos Abel a arrancar ervas no exterior. No interior, os restantes elementos desdobram-se em obras de adaptação do espaço, para o festival que se aproxima.

Duas vezes por ano, a companhia aposta em formação. Porque não há nada de pior, para eles, que sentirem que um espectáculo não resulta. Já lhes aconteceu. E notam que não funciona quando, em digressão, sentem que «o espectáculo não cresce, que não se consegue melhorar». «Temos plena consciência do que somos e temos noção de queremos aprender mais», sublinha Eduardo. Por saberem que são actores por «instinto e verdade», gostam de sentir o espartilho da técnica. Por isso, reconhecem a importância de trabalhar com criadores que os ponham à prova. Nuno Pino Custódio, encenador especialista na técnica da máscara, obrigou os actores do TRSM «a uma maior rigidez técnica». «Acho que fez de nós melhores actores», nota Eduardo.

Há 12 anos surgiu o Altitudes, festival de teatro que a companhia realiza em Agosto, altura do ano em que a população triplica, com a chegada dos emigrantes. Começou por ser apenas um encontro de final de tarde, na aldeia. Como correu bem e como o TRSM já tinha uma rede de contactos com outras companhias, apostaram na realização de um festival em regime de intercâmbio: ora dá cá um espectáculo da tua companhia, ora toma lá outro da minha. Agora, o festival tem um orçamento próprio e deixou de haver troca de borlas.

Nas primeiras edições, o público era o de Campo Benfeito e Rossão. Aos poucos, foi alargando. Até que conquistou visitantes muito heterogéneos; tanto aparece o velhinho da aldeia, o emigrante que vem à terra, como o jovem cosmopolita que decide acampar e que se divide entre dois festivais: o Altitudes e o Andanças, em S. Pedro do Sul. Para além dos espectáculos, o Altitudes organiza vários ateliês, para que os visitantes se mantenham ocupados durante o dia.

Quem também costuma participar no Altitudes, fazendo passagem de modelos ou promovendo ateliês, são as Capuchinhas, uma cooperativa que se dedica à criação de peças de burel, linho e lã. Com a ajuda criativa de uma estilista e com a sabedoria de manusear o tear, esta micro-empresa permitiu a seis mulheres, entre os 30 e os 66 anos, uma fonte de rendimento sem obrigar a sair da aldeia. O trabalho destas mulheres foi reconhecido internacionalmente, com a atribuição do Prémio Criatividade para Mulheres em Mundo Rural, criado pela Women’s World Summit Foundation.

As Capuchinhas instalaram-se na antiga escola primária de Campo Benfeito, onde produzem as peças desenhadas pela estilista Paula Caria e concebem ainda, com frequência, figurinos para o Teatro de Montemuro. Engrácia Félix, casada com o actor Paulo Duarte, terminou o 12.º ano e decidiu aprender a costurar com a mãe. As Capuchinhas possibilitaram-lhe a permanência na aldeia. «Não ganhamos muito, tiramos o salário mínimo, mas estamos na nossa terra», diz Engrácia. Esta mulher, bem-disposta, refere que a única diferença entre morar ali ou numa cidade é «que se ouve menos barulho e se vê menos pessoas». Prefere notar as vantagens: «Temos coisas mais saudáveis, cultivamos a horta, as couves, as batatas». Eduardo Correia completa que «não há desemprego na aldeia e vive-se muito bem».

Eduardo, casado com São, tem duas filhas gémeas, de três anos. As miúdas, segundo o pai, não falam noutra coisa que não seja o teatro. «As minhas filhas vêm ver os espectáculos, sossegadas, desde muito pequenas; mas todas as crianças da aldeia vêm». E se na lenda sobre a fundação da cidade de Roma, os gémeos Rómulo e Remo sobreviveram graças a uma loba que os amamentou, em Campo Benfeito, os filhos da terra alimentam o espírito graças à companhia do lobo da representação.

São provincianos os actores do Montemuro? São, sim senhor, com todo o gosto. «Somos, no sentido em que usamos o que temos para proveito criativo». «Acima de tudo somos contadores de estórias e se gostamos de as contar à nossa maneira, isso é positivo». «Temos todas as condições para fazer os melhores espectáculos do mundo; estarmos na serra não é desculpa», vinca Eduardo Correia. E nós não os vamos desculpar. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Da Casa da Fraga

Casa da Fraga, Serra da Estrela

Foi aqui neste amontoado de granito, a 1475 metros de altitude, que começou a estância de montanha Penhas Douradas. O impulso da construção da designada Casa da Fraga foi dado pela tuberculose, doença que vitimou escritores como Júlio Dinis (1839-1871) e Cesário Verde (1855-1886).

No tempo em que os bons ares eram recomendados aos tuberculosos, no tempo em na Serra da Estrela não se faziam passeios, mas sim expedições científicas, o escalabitano Alfredo César Henriques seguiu a recomendação do médico Sousa Martins (impulsionador da construção de um sanatório na Serra da Estrela para tratar doentes com tuberculose pulmonar) e instalou-se nas Penhas Douradas. 

Como povoamento não era algo que existisse por ali, em 1882, Alfredo Henriques deitou mãos à rocha e construiu a Casa da Fraga, tendo-se tornado o primeiro tuberculoso a ser tratado com os bons ares da altitude.

E eu continuo a deslumbrar-me com a mão humana que não acredita em limites.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Da arte que nos vê #2





Estas imagens de florestas próximas de Viseu foram captadas pelo fotógrafo Nuno Cera, após os violentos fogos no Verão de 2003. Estes trabalhos - que  fizeram parte da exposição "Dark Forces", que esteve patente na Galeria António Henriques, em 2004 - revelam a beleza poética que desponta da tragédia.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Do bisavô que foi lição de vida


Quando penso no que é isso de ser beirão, lembro-me de granito, socalcos, serras e rios. Lembro-me de vinhas, pinhais e musgo, oliveiras e campos verdes ou dourados. Lembro-me de melros, corvos, mimosas, geada, granizo, lareiras e grilos.

 Lembro-me do ex-líbris de Aquilino Ribeiro: «Alcança quem não cansa». Lembro-me do meu bisavô, o senhor Coelho (ou 'Sacoelho', a forma abreviada e carinhosa de o chamar).

Quando o Miguel Horta fez este desenho do meu bisavô, este tinha 94 anos e um imenso gosto pela vida. Trabalhava todos os dias, no campo. E domingo que era domingo, era para ser passado a conviver com os (cada vez menos) colegas. Ao domingo era certinho que, ao fim de almoço, pedia a alguém cá de casa para o levar até à associação recreativa e cultural para conviver.

 Penso no que é isso de ser beirão e penso no temperamento do meu bisavô. Teimoso, trabalhador, franzino de corpo e teso de espírito, com um certo ar trocista. Guloso, muito guloso, para os doces excedia «a medida do estômago». E resiliente. Muito resiliente. Só com muita resiliência se sobrevive à morte da mulher, à morte da filha, à queda de uma oliveira com uma altura considerável. Hoje compreendo-o bem, demasiado bem. A soma dos nossos, tão nossos, mortos dá-nos ainda mais vontade de vida.

 Quando penso nisso de ser beirão, penso no meu bisavô e de uma certa reza contra o mau olhado, que ele mencionava: «Eu sou de ferro/ tu és de aço/ o que me desejares/ que te caia no regaço». O meu bisavô não falava em morrer, evitava ir a funerais. Queria chegar aos 100 anos. Com lucidez e genica, tinha orgulho na quantidade de anos que lhe desenhava as rugas. Só aos 99 anos começou a dizer, com uma serenidade desconcertante, que quando morresse não deixaria «soidades»: «Os velhos quando morrem não deixam 'soidades', os novos sim». Eu soube que ele não duraria muito, quando, num domingo ao fim de almoço, ele apontou para mim e disse que eu tinha os cabelos a arder. A lucidez começava a desampará-lo. Nesse dia, com os olhos no vazio, apontava para um horizonte desconhecido, fazia gestos como quem dava comida às galinhas.

No dia seguinte, morreu, ao fim de almoço, no lugar preferido dele: sentado no sofá azul da cozinha, junto à lareira. Morreu aos 99 anos, comigo ao pé dele. Comigo a chamá-lo, sabendo que ele já ali não estava. O que ali ainda estava era um corpo a respirar ruidosamente. Sim, naquele dia eu tive a certeza do que era isso de ser resiliente. E vi em mim um pedaço do meu bisavô. Sim, sou beirã.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

Da paisagem que somos #3

Narciso-de-trombeta na Serra da Estrela
Covão d'Ametade, Serra da Estrela
Covão d'Ametade, Serra da Estrela
Covão d'Ametade, Serra da Estrela
Vale do Rossim, Serra da Estrela
Vale do Rossim, Serra da Estrela

Das adivinhas #2

«Que diferença há entre a videira e a pomba?»

Adivinha qual é?

Resposta: A pomba dá borrachos
              e a videira borrachões.



Adivinha recolhida junto de António dos Prazeres (16/07/1975), que na altura tinha 58 anos, era peixeiro, natural de Cortiçada, Aguiar da Beira.


Fonte: Fundo Michel Giacometti/Museu da Música Portuguesa, integrado no projecto Memóriamedia 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

De Cabrum, a aldeia que já era







O único habitante de Cabrum, Viseu, rendeu-se ao peso do isolamento e, em Abril de 2009, decidiu abandonar a aldeia. Resistiu à mudança quatro anos e meio. A sombra da doença falou mais alto. Aquele lugar morrerá quando a memória se apagar. Retrato de um lugar entregue à erosão do tempo, numa reportagem publicada na extinta revista Nós, do jornal i, na edição Nós Rurais (2009), com fotografias de Humberto Almendra.



A ferrugem a corroer o homem da corneta montado a cavalo, imagem de marca dos CTT. Uma placa metálica como vestígio de um tempo em que ter telefone fixo era um luxo. Um pedaço de ironia erguido à entrada de uma aldeia em extinção. O cavalo, símbolo de rapidez, dá as boas-vindas a quem acaba de fazer três lentos quilómetros na sinuosidade de um caminho de terra batida. Não há placa a identificar Cabrum, lugarejo despovoado desde o dia 5 de Abril de 2009. Manuel Pontes, de 70 anos, foi um resistente. Durante quatro anos e meio foi o único habitante de Cabrum, na freguesia de Calde, Viseu.

Manuel Pontes fez sinal de rendição, ao comprar casa em Aguadalte, aldeia no concelho de Castro Daire que, daqui por um par de décadas, terá o mesmo destino que Cabrum. Não foi a solidão a fazê-lo desistir da terra que o viu nascer. Foi o medo de uma morte ao desamparo. Com o coração a dar sinais de cansaço e a próstata a denunciar a presença de doença, Manuel Pontes baixou os braços e deixou Cabrum entregue ao silvado. 

«Quando lá estava, as cabras roíam as ervas e as silvas», conta. Agora, cobras, lagartos e pássaros encontram abrigo na densidade da natureza. As amoras mirram, sem a colheita gulosa dos dedos da infância. Os javalis deixam por ali as suas marcas. Já se sabe que um lugar recatado e bonito é chamariz de enamorados. Por isso, aos domingos, alguns casais descem a picada da estrada florestal e procuram a paz de Cabrum para namoriscar.

Rodeada por mato e floresta, a aldeia tem vista para a serra. O rio, tapado pela vegetação, corre ao fundo. O moinho passou a moer o silêncio das ruínas. Os espigueiros vazios deixaram de esperar pela época das colheitas. A água do chafariz continua a correr, mesmo que já não haja vivalma para matar a sede, nem mulherio para lavar a roupa no tanque comunitário. Um espanta-espíritos permanece à porta de uma das moradias. A casa de Manuel conserva a antena parabólica. O televisor aliviava a solidão e alimentava a vontade de se manter informado. «Deito-me tarde. De novelas não quero saber, não valem nada, mas telejornais vejo».

Encontramos Manuel Pontes na modéstia da nova residência, em Aguadalte. Com o orgulho próprio de quem conseguiu poupar algum dinheiro conta que «se andasse na má vida, não comprava esta casa». Por má vida entenda-se estoirar a reforma em prostitutas de beira de estrada ou em copos de tinto. «A minha vida é água». Nem sempre foi assim. Manuel assume que «abusava do tintol». Mas, após a morte da mulher, que foi vítima de ataque cardíaco, apanhou um susto. E, para evitar que tivesse igual destino ao da esposa, cortou com a bebida. «O vinho aquecia-me, mas o vício não vale mais que o homem». Há 18 anos que está viúvo e abstémico.

Com a viuvez, Manuel não se sentiu atado à inércia. «Na tropa aprendi a cozinhar e a lavar roupa». E nunca teve medo de viver sozinho na aldeia, mesmo quando ouvia a desconfiança canina. «Quando o cão latia, saltava fora da cama». Mas, os latidos eram apenas por causa dos javalis. Manuel «dizia que estava armado, mas era mentira». Mentira defensiva, para evitar que ladrões e burlões se abeirassem dos bolsos dele.

Quase toda a vida deste homem foi passada em Cabrum, a amanhar as terras e a criar gado. Excluem-se os 30 meses que passou na guerra do Ultramar, em Angola, e os seis anos em que trabalhou numa fábrica na Alemanha, onde arranjou um bónus: duas hérnias. No regresso, para não fugir ao apelo agrícola, investiu o dinheiro em terrenos, gastou o corpo na agricultura. Quando precisava de ir a Viseu percorria quase 30 quilómetros a pé. Ou levantava-se às 5h00, para apanhar o autocarro às 7h30, em Almargem.

A mulher tinha 49 anos quando morreu. A descendência de ambos, um único rapaz, «já ganhava ao dia fora». Ficaram os dois por Cabrum, até o filho, «um solteirão de quarenta anos», decidir emigrar para a Suiça. Restou Manuel e um cão de caça. E a míngua de conversa.

Manuel diz-nos, com um jeito rude de falar, que o trabalho é o que lhe dá sentido aos dias. «Gosto de trabalhar! Hoje é que não. Vou fazer a barba e tomar banho». Quer assear-se, para, no dia seguinte, ir a uma consulta no Hospital de Viseu. Tem saudades de Cabrum. Mas recusou acompanhar-nos até à aldeia, para ser fotografado. Disse que, para ele, acabou a exposição mediática.

É lenta a morte de uma aldeia. Havia tempos em que, em Cabrum, o lume ardia e aquecia 14 lares. O rés-do-chão das casas era aquecido pelo bafo do gado. Com o tempo, as fogueiras foram-se tornando pachorrentas. Os mais novos, por via do casamento e do emprego, começaram a aquecer-se noutros cantos. Os mais velhos foram perdendo o fogo até ao gelo final dos corpos, entregues a sete palmos de terra. Há quatro anos [2005], na aldeia, ainda moravam três pessoas. Manuel, o filho e um vizinho. A aldeia enche apenas em Agosto, no dia da festa da Nossa Senhora da Boa Fé. Nessa altura, a fila de carros estacionados faz lembrar os carreiros das lagartas processionárias.

A pequena capela foi construída para cumprir uma promessa de um filho da terra emigrado no Brasil. Manuel Pontes, tio de Manuel Pontes, mandou erguer a ermida por ter ultrapassado alguns desaires da vida. A imagem de Nossa Senhora da Boa Fé foi levada para a Igreja de Póvoa de Calde, não fosse o abandono motivar os ladrões a surripiar a fé. Cabrum continua a ser vigiada pela imobilidade das imagens de Nossa Senhora e Santo António.

Chegamos a Cabrum, sozinhos. Sem cicerones. Ficamos de olhos postos nos despojos de rotinas idas. Os pássaros fazem-nos companhia. Até vermos, ao longe, uma silhueta masculina acompanhada por três cãezitos. Aproximamo-nos do homem que diz que Cabrum não é sítio para uma rapariga se aventurar sem companhia. Conta-nos que tinha ido ver umas colmeias no meio da serra e que passou pela aldeia para ver os castanheiros que se enchem de frutos. César Chaves, de 72 anos, nascido e criado em Cabrum, lembra que costumava visitar ali Manuel Pontes, para lhe aliviar a «fome de conversa». Agora, por vezes, visita a aldeia aos domingos, para apanhar ar puro. «Quando cá venho até me caem as lágrimas».

O nome da aldeia denuncia a base da economia local. Cabrum é mais que um adjectivo. Era um modo de vida. Todos os moradores - com ligações familiares entre si - tinham rebanhos. No total, chegou a haver por ali 50 a 60 cabras e cabritos. Os comerciantes de gado passavam por lá para fazer negócio. E os habitantes iam a pé vender os animais na feira de Viseu.

César Chaves recorda a meninice. Ia à escola a Calde e, no regresso, tratava de auxiliar os pais nas tarefas agrícolas. Fez a terceira classe e, só mais tarde, em Macau (onde esteve ao serviço da Marinha), é que completou a quarta. «Chegávamos aqui e não pegávamos nos livros. Era preciso trabalhar, andar com o gado, cascar milho. Agora não é assim, os miúdos de hoje são muito mimosos».

Para proteger os rendimentos familiares e para evitar uma sova pouco paternal, o César adolescente chegou a enfrentar um lobo. Rapazote, contrariou as indicações da mãe, que lhe disse para levar o rebanho a pastar num determinado sítio. César decidiu ir para outro lado. Os lobos apareceram. Um deles agarrou um cabrito e ele deu luta. Puxou o animal, mas a figura lupina levou a melhor: «O lobo arrancou a cabeça do cordeiro». Chegou a casa, com o que restava do animal. Ninguém o livrou da tareia.

O pai de César era caçador. Mas não se julgue que à mesa se colocava tudo o que se caçava. «Quando matava um coelho, comia-se cá em casa. Quando caçava perdizes, não se julgue que as comíamos! O meu pai ia vendê-las a Viseu, a casa de fidalgos». A diferença entre o coelho e a perdiz estava no valor comercial. A perdiz levava vantagem de dois escudos.

Em Cabrum não havia apenas fartura de gado, mas também de água, lenha e fruta. A aldeia era quase auto-suficiente. As mulheres até confeccionavam a roupa em linho ou burel.

Cabrum nunca foi prioridade para o poder político. Tão poucos habitantes não justificavam o investimento. «Os únicos benefícios que a junta fez cá foi a estrada em terra batida e o chafariz». A terra chegou a ter uma taberna, onde se vendiam alguns bens essenciais. Mas o número reduzido de moradores não chegava para o comerciante ter lucro.

Muitos dos moradores da aldeia, já falecidos, nunca conheceram outro chão. «Houve pessoas, como a minha mãe, que nunca saíram daqui. Nasceram aqui, criaram-se aqui, casaram aqui e trabalharam sempre aqui, na agricultura». Não foi o caso de César, que saiu de Cabrum aos 20 anos, para ir para a Marinha. Mais tarde casou com uma mulher de Calde e foi morar para Lisboa, onde trabalhou 30 anos, como motorista da Carris. Quando se reformou, regressou à freguesia, para morar na terra da esposa. «Se Cabrum tivesse condições, preferia viver aqui».

César lembra os primeiros passos que deu, quando saiu de Cabrum. Não podia abandonar a aldeia descalço. «Em 1957, quando fui para a Marinha, disse ao meu pai: ‘Então, vou com os sapatos todos remendados?’» Não queria fazer má figura. Por isso, se não havia dinheiro no bolso, havia que apurá-lo. Foi graças ao actual presidente da câmara de Gondomar, natural de Calde, que César comprou calçado novo. «Fui cortar pinheiros à mata e fui vender a lenha, por 80 escudos, ao Valentim Loureiro. E comprei os sapatos por 80 escudos».

Naqueles tempos, ai de quem caísse à cama doente. Ir ao médico era uma empreitada que exigia fôlego. «O doente para ir de táxi para Viseu, tinha de ir até Almargem de carro de bois, aos solavancos». O transporte de defuntos não era tarefa mais simples. Os caixões eram transportados aos ombros de quatro homens, a pé, pelo meio da floresta, até ao cemitério de Calde.

César Chaves recorda-se de quando, ainda miúdo, partiu uma perna e teve de estar hospitalizado. Para regressar a casa, de perna engessada, veio montado num burro, pertença de um tio. «No caminho, o burro viu cavalos a relinchar, assustou-se e atirou-me ao chão». Nas redondezas andavam lavradores que se prontificaram para o levar à aldeia, deitado num carro de bois. Por sorte, a perna não sofreu danos de maior. Os tempos são outros e agora César, quando quer alimentar a memória, vai a Cabrum de moto 4. Este homem continua a teimar em não deixar que a aldeia esvaeça da sua vida.

Mas, em Cabrum, o tempo não pára. Um dia o granito das casas não será mais que arqueologia de um viver rural. Houve tempos em que as horas não andavam no pulso dos moradores. Um único relógio orientava os dias da aldeia. Há anos, o relógio de sol, incrustado na fachada da casa do ti Agostinho e da tia Patrocínia, desapareceu. Como os donos. A aldeia entrou na hora da morte. 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Da Linha da Beira Alta #1





A Linha da Beira Alta, que a 3 de Agosto completa 131 anos de existência, estende-se ao longo de 200 quilómetros e liga Pampilhosa (a norte de Coimbra) à fronteira de Vilar Formoso.  Esta linha, que se  tornou-se a principal ligação ferroviária internacional, deixou de ter hoje o fulgor de outros tempos, em particular em Nelas. Devido ao caminho de ferro, durante o século XX, Nelas foi mesmo o concelho com maior desenvolvimento industrial no distrito de Viseu - com a Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos (fundada em 1917 e encerrada na década de 1980) e com a actividade da Empresa Nacional de Urânio nas Minas da Urgeiriça (cuja exploração teve início em 1913 e cujo encerramento ocorreu na década de 1990), em Canas de Senhorim.  
Na estação de Canas de Senhorim, designada Canas - Felgueira, o tempo e o descuido ainda não conseguiram apagar os painéis de azulejos da autoria de Francisco Pereira e Licínio Pinto. 

Do saber fazer pão

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Da arte que nos vê #1




Estes trabalhos fizeram parte da exposição «Reconhecer - Um Lugar» (2004), da autoria de Gabriela Albergaria. A Galeria António Henriques desafiou a artista a debruçar-se sobre  a realidade geográfica da região de Viseu. Daí resultaram desenhos e fotografias inspirados no parque do Fontelo e no jardim Aquilino Ribeiro, em Viseu.