segunda-feira, 22 de julho de 2013

Dos moinhos de vento da Serra da Atalhada







Penacova está aqui tão perto e, até há pouco tempo, nunca tinha ouvido falar nos moinhos de vento da Serra da Atalhada. Tardei, mas não falhei. Fui à descoberta. E cheguei a um lugar onde me apeteceu ficar. Ali permaneci algum tempo, abraçada pelo vento e embalada pelo cheiro caloroso da urze. É um belo sítio para passar uma tarde, em redor de piqueniques, boas conversas e livros envolventes.
 Foi por iniciativa do Centro de Convívio do Zagalho e Vale do Conde, com o apoio da autarquia de Penacova e do IPJ, que os moinhos sobreviveram à ruína, transformando-se em turismo rural. Os 23 moinhos de vento, que foram construídos há séculos e que serviam para a moagem de cereal, fazem agora parte de um complexo turístico, que inclui ainda um bar e um restaurante, para quem quiser alimentar algo mais além do espírito.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Do Mondego

 Daniel Pinheiro, natural de Coimbra e apaixonado por Biologia, quis captar a vida selvagem do rio Mondego, desde a nascente até à foz. Daí resultou um documentário,  que constituiu o trabalho final do mestrado em produção de documentário em vida selvagem, da Universidade de Salford, no Reino Unido. "Mondego", filmado na Primavera de 2010, revela a beleza que se desenha no caminho percorrido pelo rio, desde a Serra da Estrela  até ao abraço final com o oceano Atlântico, na Figueira da Foz.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Das adivinhas #5

«Brinco, brinco, brinco
Quanto mais brinco, brinco,
Mais a barriga me cresce.»

Adivinha o que é?

Fonte: Fundo Michel Giacometti/Museu da Música Portuguesa, integrado no projecto Memoriamédia

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Do rio que cá corre dentro

Eu (a do meio) acompanhada por duas primas








Há uma ponte que atravessa a minha vida, um rio que me enxagua as fundações. O Mondego faz parte de mim, tal como o orvalho, a geada ou o cheiro a terra molhada, o zumbido das abelhas, o cheiro a resina e a musgo, o fascínio por coisas velhas. Concluída em 1898, a ponte das Caldas da Felgueira, que marca a transição entre dois distritos (Viseu e Coimbra) e entre dois concelhos (Nelas e Oliveira do Hospital), era já velhinha quando eu nasci. Agora, é centenária e melancólica.

Nos Verões da minha meninice, havia tardes domingueiras que se banhavam nas margens do Mondego, havia tardes em que as mantas eram estendidas à sombra de árvores, enquanto os passos teimavam em ir direitinhos para dentro da água. Com uma banda sonora feita de cigarras, mergulhos e risos, eram tardes cheias de uma liberdade fresca. E de pneus que serviam de bóias XXL.

Nos Verões da minha infância, as pessoas estavam de braços abertos para o rio. E havia barcos a remos que nos punham de braços dados com o Mondego. Havia um rio com vida. E gente que se passeava na ponte, para distrair os domingos, e estava certa de que lá em baixo a mesma água nunca passaria duas vezes. Ainda hoje há gente que olha o fugidio rio e relembra que nesta vida tudo passa, que um dia tudo será passado.

Os primeiros banhos de piscina foram também rentes ao Mondego, no Grande Hotel das Caldas da Felgueira. Nos quentes finais de tarde, o meu pai pegava em mim e no meu irmão e lá íamos mergulhar na piscina. Ao fim-de-semana não havia muita motivação para ir lá arrefecer o corpo. Eram tempos em que o passeio de muitos era ir observar, do lado de fora do recinto, quem tomava banho na piscina do hotel.

Quando comecei a adolescer, o Mondego não deixou de correr nos meus dias. A autonomia começou a ganhar-se com uma scooter. Ia para a escola na lambreta, iniciava-me nos passeios sem os pais, na maior mobilidade do querer, do crescer. Naquela altura, fazia parte de um grupo de seis inseparáveis amigas. Seis mosqueteiras, para três lambretas. Lá andávamos as seis de ‘cu tremido’. Muitos dos nossos passeios tinham como destino a ponte das Caldas Felgueira. Ali gastávamos o tempo em intermináveis conversas e em pequenos piqueniques. A doce contemplação da água que nos refrescava o olhar.

O grande início da emancipação veio com aquela lambreta vermelha. Não havia telemóveis, mas também não fizeram falta. Havia a confiança que os meus, os nossos, pais depositaram em nós. E ir à Felgueira de scooter -  para quem não conheça a estrada que liga Canas de Senhorim às Caldas da Felgueira - é um grande passo em termos de crescimento e responsabilidade. Porque é uma estrada sinuosa, estreita, sem barreiras laterais, cheia de curvas e mimosas. Bonita, mas perigosa.

Hoje, numa coisa tão simples quanto uma ida de mota até à Felgueira, percebo as grandes asas que os meus pais me souberam dar.  A ponte das Caldas da Felgueira está tão perto de minha casa e levou-me tão longe em termos de maturidade. Esta ponte  não é só uma ponte. Este rio não é só um rio. Este rio corre-me dentro, este rio sentiu já a minha pele, o meu calor, as palavras minhas e lágrimas e risos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Do que é isso de ser beirão #2


O Homem da Beira é uma curva de rio

Ser da Beira é ser o quê?  Ser da Beira é uma disponibilidade, essencialmente. Uma disponibilidade para partir e estar sempre à beira de estar bem, como se essa indefinição forjada na geografia impossível da “felicidade” fosse  a chave para abrir todas as portas deixadas para trás, como se a certeza de que se tem a chave certa para abrir essas portas, que ficaram no passado, fosse um feitiço que atira sempre o Homem da Beira para todas as beiras.
Pelo meio do século XX surgia em Moimenta da Beira um jornal, o Correio Beirão, que tinha como frase para a sua afirmação “da Beira para todas as beiras”. E é essa disponibilidade de partir da Beira para qualquer beira pendurada nas pontas da rosa dos ventos que distingue o Homem da Beira do Homem das outras beiras.
O que permite ao Homem da Beira este à-vontade com o boi do vento a puxar a carroça do destino, do seu destino, não é mais nem menos que uma graça dos céus, como apontou Aquilino, ao definir a Beira como aquele espaço geográfico onde se encontra sempre um pedaço do mundo.
O Homem da Beira que tenha percorrido as suas romarias, que conheça as suas sonolentas ladainhas, já esteve nas serras com neve, ou nas áridas encostas de Sul a dar na fronha e no Norte afogado no Douro, onde os chaparros dão uma desconhecida alentejana cortiça, nas fartas e faustas florestas do Caramulo ou de Lafões, em rios alimentados por glaciares efémeros, no frio intenso da Guarda, no ameno termómetro do extremo Sul da Beira… é por isto que não há beira que meta medo ao Homem da Beira.
E é também isto que define os seus traços de carácter, a sua idiossincrasia, porque quem se afirma na disponibilidade de andar de beira em beira, tem que ser de versáteis princípios… mas princípios.
Para o Homem da Beira a decência não se confunde com a honestidade porque a primeira admite mudar de perspectiva perante alterações de circunstância e a segunda impõe uma rigidez imprópria de quem faz do caminho vida.
Não é por acaso que alguns dos primeiros “Lançados” em África, os homens que  subiram os rios da Guiné para os primeiros contactos com os povos locais, enfrentando o definitivo desconhecido, eram gentes da Beira, como o foram em Angola também, ou no Brasil ainda… é a disponibilidade que diferencia o Homem da Beira e que lhe permite uma bondade austera, quantas vezes confundida com desconfiança, coisa que se dissipa no seu tempo, ou nunca…
O Homem da Beira faz-se a levantar-se da cama e ver Espanha a Leste e o mar a Oeste, ambos perto, mesmo ali ao lado… mas para onde este Homem não vai. Não vai para Espanha porque em Espanha está ele. Não vai para  o mar, porque no mar, sente-o de uma forma estranha, está ele… mas vai para as américas, áfricas, para qualquer lugar de onde não aviste o pico da Serra da Estrela, mas de onde possa, vá lá, ver o fumo a sair pela chaminé da sua casinha nas berças e de onde possa sair sempre a tempo para comer o caldo acabado de sair das mãos do alquimista maior.
O Beirão é aquela criatura que sabe que só se faz gente se percorrer todo o rio, da nascente à foz, mas que sabe que só se é inteiro quando regressa à curva do rio onde, pela primeira vez, cobriu o corpo de água e viu as cuecas da sua Maria.
Na verdade nenhum beirão faz a mínima ideia do que é isto de ser beirão… é-o.  E chega.



Ricardo Bordalo
Jornalista, nascido em Cascais e criado em Moimenta da Beira 


terça-feira, 21 de maio de 2013

Da arte que nos vê #4






 Estes trabalhos do fotógrafo José Bacelar integram o Projecto "Lapa do Lobo"(patrocinado pela Fundação Lapa do Lobo), no qual participaram ainda os fotógrafos Tito Mouraz, André Cepeda, José Pedro Cortes e Ângela Berlinde. O objectivo deste projecto, que resultou num livro, foi retratar as gentes, vivências e tradições desta localidade beirã.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Do que é isso de ser beirão #1

O ABeira-te vai desafiar algumas pessoas, das Beiras, ou com ligações a esta região, a escreverem sobre o que é afinal isso de ser beirão. A primeira convidada é a Marta Filipa Costa, autora do blogue Sorte de Principiante e da página Mau Humor. O olhar de uma jovem, de 20 anos, que nunca viveu senão em Viseu. 





O que é ser beirã?
Ser beirã é viver e ter nascido na região da Beira. Suponho, contudo, que a pergunta tenha tudo menos literalidade. Vou, por isso, tentar extrapolar-me um pouco e procurar dentro de mim o que me faz sentir beirã.

Quando se fala na região da Beira, é impossível não referir Viseu, a minha cidade. Estou no coração de Portugal, próxima de tudo. Fora do alcance fica apenas a confusão da capital, as planícies do Alentejo e os turistas do Algarve. Por outro lado, as praias de Aveiro e da Figueira da Foz estão a uma curta viagem, assim como a vizinha Espanha. Somos do norte, sem o extremismo do Porto, e possuímos a Serra da Estrela.

Deixando agora de parte a geografia, que me parece ainda um pouco literal, há uma grande história, que remonta aos tempos da Lusitânia, liderada por Viriato, incrustada na nossa região. Pouco cosmopolitas, somos fiéis a muitas tradições.

A ideia de que a Beira é recheada de pequenas aldeias, perdidas pelas encostas das serras, onde predomina a agricultura familiar e uma forte herança vinícola, é verdade e explorá-la sem destino é um pequeno prazer. Ainda no outro dia, descobri a Reserva Botânica de Cambarinho, que é uma das mais importantes concentrações de Loendros da Europa.

Somos conhecidos pela gastronomia dos queijos de cabra e ovelha da Serra, dos enchidos, do leitão da Bairrada e dos pratos à moda de Lafões. A religião ainda desempenha uma parte muito importante na vida dos beirões e uma pequena capela está sempre ao virar da esquina.

Grandes nomes estão igualmente ligados a nós, como o pintor Grão Vasco e António de Oliveira Salazar, assim como as marcas das empresas Visabeira e Licor Beirão. Este último lançou um slogan arrojado, na década de 60, que dizia “Licor Beirão – O Beirão de quem se gosta.”

Há muito para dizer sobre o que é ser beirã, mas nem tenho a certeza se é o que me faz sentir uma ou se é tudo uma questão de herança cultural. Sou-o no sangue, quer queira quer não. Ainda não tive oportunidade de viver noutro lugar, mas este berço que me acolhe é um lugar que está em mudança – rumo ao modernismo. Talvez as tradições se percam, mas não vou deixar de ser beirã.


Marta Filipa Costa